Para entender João 10, é preciso olhar o capítulo anterior. Em João 9, Jesus cura um homem cego de nascença. Em vez de se alegrarem, alguns fariseus interrogam o homem, desconfiam dele e acabam por expulsá-lo da sinagoga. Jesus então vai ao encontro do homem expulso.
É logo depois dessa cena que Jesus fala do bom pastor. Ou seja, o discurso é também uma crítica aos líderes que, em vez de cuidar das ovelhas, as afastam. Os ouvintes conheciam o capítulo 34 do profeta Ezequiel, em que Deus condena os pastores que só cuidam de si e promete: “eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas” (Ez 34,15).
Na cultura de Israel, a imagem do pastor era muito familiar. Abraão, Moisés e Davi foram pastores. Os reis eram chamados de pastores do povo. E o próprio Deus era cantado como pastor no Salmo 23. Quando Jesus diz “Eu sou o bom pastor”, ele se coloca nesse lugar que pertencia a Deus.
Jesus começa com uma pequena parábola. Quem não entra pela porta do redil, mas pula o muro, é ladrão. O pastor entra pela porta, e o porteiro abre para ele. As ovelhas ouvem a sua voz, e ele as chama pelo nome (Jo 10,3).
Naquela época, vários rebanhos passavam a noite num mesmo cercado. De manhã, cada pastor chamava as suas ovelhas, e elas o seguiam, porque reconheciam a voz dele. Um estranho podia chamar à vontade, e elas não iam (Jo 10,5).
João comenta que os ouvintes não entenderam o que Jesus queria dizer (Jo 10,6). Por isso, Jesus explica a parábola em duas imagens: a porta e o pastor.
“Eu sou a porta” (Jo 10,7-10)
“Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10,7). Jesus é o único acesso seguro ao redil, isto é, à vida com Deus. Quem entra por ele “será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,9). A imagem fala de liberdade e de alimento. Seguir Jesus não é viver preso, mas viver protegido.
Em contraste, o ladrão vem só para roubar, matar e destruir. E então Jesus diz uma das frases mais conhecidas do Evangelho: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). A vida em abundância não é luxo nem ausência de problemas. É a vida plena, reconciliada com Deus, que começa já aqui e continua na eternidade.
“Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11-18)
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10,11). A palavra grega traduzida por “bom” é kalós, que também quer dizer belo, verdadeiro, ideal. Jesus é o pastor como deve ser.
Em seguida aparece o contraste com o mercenário. Ele trabalha só pelo salário. Quando vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, porque elas não são dele (Jo 10,12-13). O mercenário não é necessariamente mau. Ele apenas não ama.
“Eu conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas me conhecem” (Jo 10,14). Na Bíblia, conhecer é mais do que saber o nome: é ter intimidade, relação de amor. Jesus compara esse conhecimento ao que existe entre ele e o Pai (Jo 10,15).
Jesus fala ainda de “outras ovelhas que não são deste redil” (Jo 10,16). São os pagãos, os de fora, que também serão chamados. O desejo dele é que haja “um só rebanho e um só pastor”.
Por fim, Jesus diz que dá a vida livremente: “Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por mim mesmo” (Jo 10,18). Aqui está o centro do capítulo. A cruz não será um acidente, mas uma entrega de amor.
Na festa da Dedicação (Jo 10,22-42)
A segunda parte do capítulo se passa meses depois, no inverno, durante a festa da Dedicação do Templo, no pórtico de Salomão (Jo 10,22-23). Alguns judeus pedem que Jesus diga claramente se é o Messias.
Jesus responde retomando a imagem do pastor: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz… e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10,27-28). E acrescenta: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Os ouvintes entendem a afirmação de divindade e pegam pedras para apedrejá-lo. Jesus se retira para o outro lado do Jordão, onde muitos creem nele (Jo 10,40-42).
O pastor em toda a Bíblia e na arte cristã
João 10 não aparece do nada. A imagem do pastor atravessa a Bíblia inteira. No Salmo 23, o salmista canta: “O Senhor é o meu pastor”. Em Ezequiel 34, Deus promete procurar a ovelha perdida, reconduzir a desgarrada e curar a ferida. Em Isaías 40,11, ele carrega os cordeiros no colo.
Nos outros Evangelhos, Jesus conta a parábola da ovelha perdida: o pastor deixa as noventa e nove e vai atrás da que se perdeu (Lc 15,4-7). Diante da multidão cansada, ele sente compaixão, porque eram “como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). E, depois da ressurreição, entrega a Pedro a tarefa de apascentar o rebanho (Jo 21,15-17).
Os primeiros cristãos gostavam tanto dessa imagem que ela se tornou uma das mais antigas representações de Jesus. Nas catacumbas de Roma, onde os cristãos enterravam os seus mortos, há pinturas do pastor com uma ovelha sobre os ombros. Antes mesmo de pintarem o crucifixo, os cristãos pintavam o Bom Pastor.
Essa preferência diz muito. Em tempos de perseguição e de morte, os fiéis queriam lembrar que alguém os conhecia pelo nome e os levaria para casa. É a mesma certeza que o texto de João oferece a quem o lê hoje.
O que a Igreja ensina
O Catecismo usa João 10 para explicar o que é a Igreja. Ele cita o Concílio Vaticano II: a Igreja é o redil cuja única porta é Cristo, e o rebanho guiado e alimentado sem cessar pelo próprio Cristo, “bom Pastor e Príncipe dos pastores” (CIC §754).
Sobre a paixão, o Catecismo ensina que Jesus aceitou livremente a morte por amor, retomando a frase “ninguém ma tira” (CIC §609). E, ao tratar dos ministros, diz que o Bom Pastor deve ser o modelo e a forma do serviço do bispo (CIC §896). O parágrafo 553 lembra que o próprio Jesus, o bom pastor, confiou a Pedro a missão de apascentar as suas ovelhas (Jo 21,15-17).
Na liturgia, o quarto domingo da Páscoa é chamado de Domingo do Bom Pastor, porque o Evangelho é sempre tirado de João 10. Nesse dia a Igreja celebra o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Os textos do Catecismo estão no site do Vaticano.
Aplicação para hoje
A primeira aplicação é pessoal. Jesus chama cada um pelo nome. Ninguém é um número para ele. Em dias de solidão, vale repetir esta certeza: o Pastor me conhece, sabe da minha história, das minhas feridas e das minhas alegrias.
A segunda é aprender a reconhecer a voz dele no meio de tantas vozes. Hoje somos bombardeados por opiniões, notícias e mensagens no celular. A voz do Pastor se ouve na Palavra de Deus, na oração silenciosa, nos sacramentos e na consciência bem formada. Ler um trecho do Evangelho todos os dias é um treino para os ouvidos da alma.
A terceira aplicação é para quem tem alguém sob seus cuidados: pais, avós, catequistas, chefes. Somos chamados a ser pastores, e não mercenários. Isso significa ficar quando chega o lobo, isto é, quando a situação aperta. Santos brasileiros como Frei Galvão, que passou a vida atendendo o povo de São Paulo, deixaram esse exemplo de pastoreio dedicado.
Para rezar pelas vocações e pelos pastores da Igreja, use as orações do portal. E para ler o Evangelho de cada domingo, acompanhe a liturgia diária.
Perguntas para reflexão
Eu reconheço a voz de Jesus no meio do barulho do dia a dia? Que vozes estranhas têm me afastado dele? Em que momento da vida senti que o Pastor veio me buscar?
Com quem eu sou chamado a ser pastor hoje? Tenho agido como pastor ou como mercenário? Rezo pelos padres e bispos que cuidam da minha comunidade?