Quem cresceu numa família católica talvez tenha decorado a lista na catequese: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede... Com os anos, a lista pode ficar esquecida. Mas ela continua sendo um dos resumos mais práticos da vida cristã.
O Catecismo define as obras de misericórdia como as ações de caridade com que ajudamos o próximo nas suas necessidades do corpo e do espírito (§2447). Nesta matéria, vamos ver cada uma delas e pensar em formas simples de praticá-las hoje.
A base está no Evangelho de Mateus, capítulo 25. Jesus descreve o juízo final. Ele diz: "Eu estava com fome e me destes de comer; com sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes; nu e me vestistes; doente e me visitastes; preso e viestes ver-me". E conclui que tudo o que fizermos ao menor dos irmãos, é a Ele que fazemos.
Ao longo dos séculos, a tradição da Igreja organizou esse ensinamento em duas listas de sete obras. A sétima obra corporal, enterrar os mortos, costuma ser ligada ao livro de Tobias, em que o personagem principal arrisca a vida para sepultar os mortos do seu povo. O Catecismo confirma que enterrar os mortos é uma obra de misericórdia corporal (§2300).
Em 2015, ao convocar o Jubileu da Misericórdia, o Papa Francisco pediu que os cristãos redescobrissem essas obras. Ele listou as catorze na bula Misericordiae Vultus, número 15, que pode ser lida no site do Vaticano.
As sete obras corporais
São as que cuidam das necessidades do corpo: 1. Dar de comer a quem tem fome. 2. Dar de beber a quem tem sede. 3. Vestir os nus. 4. Dar pousada aos peregrinos. 5. Visitar os enfermos. 6. Visitar os presos. 7. Enterrar os mortos.
Dar de comer e de beber pode ser algo direto, como ajudar na sopa da paróquia ou levar uma cesta básica a uma família. Também pode ser discreto: cozinhar para uma vizinha que acabou de sair do hospital ou pagar um lanche para alguém que pede na porta da padaria.
Vestir os nus inclui doar roupas em bom estado, e não só o que está rasgado. Dar pousada aos peregrinos, hoje, pode significar acolher um parente que veio de longe para tratamento médico ou apoiar casas de acolhida de migrantes.
Visitar, acompanhar, despedir
Visitar os enfermos é uma das obras mais ao alcance de quem tem mais de 40 anos. Muitos de nós temos pais, tios ou amigos doentes. Uma visita, uma ligação ou uma mensagem fazem diferença. Muitas paróquias têm a Pastoral da Saúde, que leva a comunhão e companhia aos doentes. Pergunte na sua se há um grupo e como participar.
Visitar os presos parece mais difícil, mas há caminhos. A Pastoral Carcerária atua em várias dioceses do Brasil. Quem não pode ir aos presídios pode rezar pelos presos, apoiar as famílias deles e ajudar quem sai da prisão a recomeçar.
Enterrar os mortos inclui ir ao velório, consolar a família, ajudar nas despesas quando necessário e rezar pelo falecido. O Catecismo diz que essa obra honra os filhos de Deus, templos do Espírito Santo (§2300).
As sete obras espirituais
São as que cuidam das necessidades da alma: 1. Dar bom conselho. 2. Ensinar os ignorantes. 3. Corrigir os que erram. 4. Consolar os tristes. 5. Perdoar as injúrias. 6. Suportar com paciência as fraquezas do próximo. 7. Rezar a Deus pelos vivos e pelos mortos.
O Catecismo cita várias delas: instruir, aconselhar, consolar, confortar, perdoar e suportar com paciência (§2447). Elas parecem menos visíveis que as corporais, mas exigem tanto ou mais de nós.
Dar bom conselho e ensinar pedem preparo e humildade. Avós que ensinam os netos a rezar, catequistas e voluntários de alfabetização praticam essas obras. Corrigir os que erram exige cuidado: a correção fraterna é feita com amor, em particular e sem humilhar.
Consolar, perdoar, ter paciência
Consolar os tristes é estar presente na dor do outro. Às vezes, não é preciso falar muito. Sentar ao lado, ouvir e rezar junto já é consolo. Pessoas viúvas, que perderam um filho ou que vivem sozinhas costumam precisar dessa presença.
Perdoar as injúrias é talvez a obra mais difícil. Perdoar não é fingir que nada aconteceu nem deixar de buscar justiça. É decidir não alimentar o rancor e entregar a Deus a ferida. Jesus ensinou isso no Pai-Nosso: "perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos".
Suportar com paciência as fraquezas do próximo é a obra de todos os dias. O marido que repete a mesma história, o colega lento, o parente difícil no almoço de domingo. A paciência também é caridade. Rezar pelos vivos e pelos mortos fecha a lista e está ao alcance de todos, até de quem está acamado.
Misericórdia e justiça andam juntas
O Catecismo lembra que a esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna e também uma prática de justiça que agrada a Deus (§2447). O amor aos pobres faz parte da tradição constante da Igreja e se inspira no Evangelho das bem-aventuranças (§2444).
Ao mesmo tempo, o Catecismo alerta que o amor aos pobres não combina com o apego exagerado às riquezas (§2445). A misericórdia não é só dar o que sobra. É olhar o outro como irmão. Santos como São Francisco de Assis mostraram isso com a própria vida.
Um roteiro de quatro semanas
Para sair da teoria, uma sugestão prática. Na primeira semana, separe roupas e alimentos em bom estado e leve a uma obra social da paróquia ou da sua cidade. Pergunte antes do que eles mais precisam, para que a doação seja útil.
Na segunda semana, escolha uma pessoa doente ou idosa que vive sozinha e faça uma visita. Se não for possível ir, telefone e converse sem pressa. Na terceira semana, pense em alguém com quem você está magoado e reze por essa pessoa todos os dias. Se for prudente, dê um passo de reconciliação.
Na quarta semana, reze pelos falecidos da família e, se puder, peça uma Missa na intenção deles. Ao final do mês, faça um pequeno balanço: o que foi mais fácil? O que custou mais? Esse exercício ajuda a perceber onde Deus está pedindo crescimento.
Perguntas que muita gente faz
Preciso fazer todas as obras para ser um bom cristão? Ninguém consegue fazer tudo ao mesmo tempo. Cada fase da vida oferece oportunidades diferentes. O importante é ter o coração aberto e não deixar passar as ocasiões que Deus coloca no caminho.
Doar dinheiro pela internet conta como obra de misericórdia? Pode contar, desde que seja para uma instituição séria. Mas vale lembrar que muitas obras pedem presença: visitar, ouvir, consolar. O ideal é combinar as duas formas.
Como começar? Escolha uma obra corporal e uma espiritual para praticar neste mês. Anote numa folha e coloque na geladeira. Para rezar pedindo um coração misericordioso, veja as orações em Orações e outros estudos na categoria Catecismo.