Lançado em 2007, o primeiro volume vai do Batismo no Jordão à Transfiguração.
Bento XVI une estudo histórico dos Evangelhos e leitura de fé para mostrar que o Jesus da história é o Cristo da fé.
Leitura exigente e recompensadora, para quem quer conhecer melhor os Evangelhos. Nota do portal: 5 de 5.
Quem foi Joseph Ratzinger
Joseph Ratzinger nasceu em 16 de abril de 1927, em Marktl am Inn, uma pequena cidade da Baviera, no sul da Alemanha. Foi ordenado padre em 1951, junto com o irmão Georg. Tornou-se um dos teólogos mais respeitados do século XX, professor em várias universidades alemãs e consultor no Concílio Vaticano II.
Em 1977, foi nomeado arcebispo de Munique e cardeal. Em 1981, São João Paulo II o chamou a Roma para dirigir a Congregação para a Doutrina da Fé, onde ficou mais de duas décadas. Em 19 de abril de 2005, foi eleito papa e escolheu o nome de Bento XVI.
Em 2013, surpreendeu o mundo ao renunciar ao pontificado, alegando falta de forças para o cargo. Viveu os últimos anos num mosteiro dentro do Vaticano, rezando e escrevendo pouco. Morreu em 31 de dezembro de 2022, aos 95 anos.
Como o livro nasceu
Ratzinger começou a escrever o livro em 2003, ainda como cardeal. Era um desejo antigo: apresentar a figura de Jesus a partir dos Evangelhos, depois de uma vida inteira estudando teologia. Quando foi eleito papa, decidiu continuar o projeto nas horas livres.
O primeiro volume saiu em 2007, perto do aniversário de 80 anos do autor. Logo virou um sucesso mundial de vendas. O segundo volume, sobre a entrada em Jerusalém até a Ressurreição, saiu em 2011. Em 2012 veio um terceiro, menor, sobre a infância de Jesus.
Um papa que se deixa contradizer
No prefácio, Bento XVI faz um aviso raro. Ele diz que o livro não é um ato do magistério, mas fruto da sua busca pessoal do rosto do Senhor. Por isso, cada leitor é livre para discordar dele.
Esse gesto de humildade dá o tom do livro. Não é um documento oficial. É um teólogo conversando com o leitor e com outros estudiosos, aberto ao debate. Ao mesmo tempo, é alguém que escreve de joelhos, com fé.
Do que trata o livro
O volume tem dez capítulos. Começa pelo Batismo de Jesus no Jordão e pelas tentações no deserto. Depois fala do anúncio do Reino de Deus, do Sermão da Montanha, do Pai-Nosso, da escolha dos discípulos e das parábolas. Em seguida, aborda as grandes imagens do Evangelho de João, como a água, a videira, o pão e o pastor. Termina com a confissão de Pedro, a Transfiguração e os títulos que Jesus usa para falar de si mesmo.
A pergunta que atravessa o livro é a mesma que Jesus fez aos discípulos: e vós, quem dizeis que Eu sou?
As ideias centrais
A primeira ideia é que o Jesus dos Evangelhos é confiável. No século XX, muitos estudiosos separaram o chamado Jesus histórico do Cristo da fé, como se fossem duas pessoas. O primeiro seria um pregador comum. O segundo, uma criação da Igreja. Bento XVI reconhece o valor do método histórico, mas mostra seus limites. Para ele, a figura apresentada pelos Evangelhos é a mais lógica e coerente, também do ponto de vista histórico.
A segunda ideia é que Jesus vive em comunhão íntima com o Pai. Tudo o que Ele faz e diz nasce dessa relação. O centro da pessoa de Jesus é a oração ao Pai. Por isso, quem quer conhecer Jesus precisa entrar nesse diálogo.
A terceira ideia é que o Reino de Deus não é um projeto político nem um programa social. É o próprio Deus que se aproxima em Jesus. No capítulo sobre as tentações, Bento XVI mostra como a grande tentação de todos os tempos é colocar Deus em segundo plano e tentar construir um mundo melhor sem Ele.
O que mais marca na leitura
O capítulo sobre o Sermão da Montanha traz um diálogo bonito com o rabino norte-americano Jacob Neusner. Neusner escreveu um livro dizendo, com respeito, por que não seguiria Jesus. Bento XVI leva essa objeção a sério e mostra que ela toca justamente no centro: Jesus fala com uma autoridade que só Deus tem.
O capítulo sobre o Pai-Nosso é outro ponto alto. Ele comenta cada pedido da oração com profundidade e simplicidade. Muitos leitores dizem que passaram a rezar o Pai-Nosso de outro jeito depois dessas páginas.
Também tocam muito as páginas sobre as parábolas do Bom Samaritano, do Filho Pródigo e do rico e Lázaro. São comentários que servem para meditação pessoal.
Para quem indicamos
Para quem quer conhecer melhor os Evangelhos e rezar com eles. Para catequistas, ministros, seminaristas e membros de grupos bíblicos. Para quem ouviu dizer que os Evangelhos não são confiáveis e quer uma resposta séria. A seção de Bíblia do portal pode ser uma boa preparação.
Para quem talvez não seja o momento: quem nunca leu os Evangelhos. O livro pressupõe alguma familiaridade com o texto bíblico. Também pode ser difícil para quem não está acostumado a textos de teologia. Algumas passagens discutem autores e métodos de estudo bíblico e exigem atenção redobrada.
Como ler
A dica principal é ler com a Bíblia aberta ao lado. Antes de cada capítulo, leia o trecho do Evangelho que será comentado. Depois, leia o capítulo devagar, em duas ou três sessões.
Se alguma parte técnica parecer difícil, não desista. Pule para a próxima seção e volte depois. Os capítulos sobre o Pai-Nosso e as parábolas são mais acessíveis e podem ser lidos primeiro.
O livro funciona muito bem em grupos de estudo, com um capítulo por encontro. Termine cada reunião rezando o trecho do Evangelho comentado. Veja também a liturgia do dia e a seção de estudos do portal. Os textos e homilias de Bento XVI estão disponíveis no site do Vaticano, em português.
Por que ler hoje
Todo ano aparecem documentários, séries e livros que prometem revelar o verdadeiro Jesus. Muitos apresentam um Jesus reduzido: um sábio, um revolucionário, um bom homem, e nada mais. Quem não tem formação fica confuso e às vezes inseguro na própria fé.
O livro de Bento XVI oferece um chão firme. Mostra que é possível estudar os Evangelhos com seriedade, conhecer as críticas e, mesmo assim, ou justamente por isso, confiar no testemunho dos apóstolos. É uma leitura que fortalece a fé sem fugir das perguntas difíceis.
Ficha do livro
Título: Jesus de Nazaré: do Batismo no Jordão à Transfiguração. Título original: Jesus von Nazareth. Autor: Joseph Ratzinger, Bento XVI. Primeira edição: 2007, em alemão, com traduções simultâneas em várias línguas, incluindo o português. Gênero: teologia bíblica e cristologia. Estrutura: dez capítulos, com prefácio e introdução. Tamanho: em geral entre 300 e 400 páginas, conforme a edição. Continuação: volume 2, de 2011, e o livro sobre a infância de Jesus, de 2012.
Nossa avaliação
Nota 5 de 5. Jesus de Nazaré é o fruto maduro de uma vida inteira de estudo e de oração. Une rigor intelectual e fé profunda de um jeito raro. Ajuda o leitor a confiar nos Evangelhos e, sobretudo, a se encontrar com a pessoa de Jesus.
A leitura exige esforço, e não é um livro para ler às pressas. Mas o que ele oferece compensa cada página. É um daqueles livros que deveriam estar na estante de toda família católica. Veja outros reviews de livros católicos.
Continue lendo como assinante
Faltam 9 partes deste conteúdo. Assinantes leem tudo e recebem uma montagem nova com um santo todo mês.