Luís Maria Grignion nasceu em 1673, em Montfort-sur-Meu, na Bretanha, oeste da França. Adotou o nome da cidade natal e passou a assinar Luís Maria de Montfort. Desde menino tinha grande amor a Nossa Senhora. Estudou em Paris e foi ordenado padre em 1700.
Sua vocação era pregar ao povo simples. Percorreu a pé aldeias da Bretanha e do oeste da França, organizando missões populares, cantando cânticos que ele mesmo compunha e ensinando o terço. Seu estilo incomodou muita gente. Foi expulso de várias dioceses. Em 1706, foi a Roma a pé e recebeu do papa Clemente XI o título de missionário apostólico.
Fundou duas congregações, as Filhas da Sabedoria e a Companhia de Maria. Morreu em 1716, aos 43 anos, em Saint-Laurent-sur-Sèvre, durante uma missão. Foi canonizado pelo papa Pio XII em 1947.
Montfort escreveu o Tratado por volta de 1712, mas o texto não foi publicado em vida. No próprio livro, ele diz prever que o escrito ficaria escondido no silêncio de um baú. Foi o que aconteceu.
Durante a Revolução Francesa, os manuscritos da congregação foram escondidos para escapar da destruição. O Tratado só foi encontrado em 1842, na casa-mãe dos missionários montfortinos, em Saint-Laurent-sur-Sèvre. O manuscrito estava incompleto, sem as primeiras páginas e sem título. Foi publicado em 1843 e se espalhou rapidamente pelo mundo.
O título pelo qual o conhecemos foi dado pelos editores, a partir de uma expressão que o próprio Montfort usa no texto.
Do que trata o livro
O Tratado explica o lugar de Maria no plano de Deus. Montfort parte de uma ideia simples: Deus quis vir ao mundo por meio de Maria. Se Jesus veio a nós por ela, é por ela que chegamos a Ele com mais segurança. A fórmula que resume o livro é: a Jesus por Maria.
Na primeira parte, o autor mostra por que Maria é necessária na vida cristã. Na segunda, examina as devoções falsas e a verdadeira. Na terceira, apresenta a perfeita consagração a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, que ele chama de santa escravidão de amor. No fim, explica as práticas exteriores e interiores dessa consagração.
É importante entender que, para Montfort, a consagração a Maria é uma renovação das promessas do batismo. Não se trata de colocar Nossa Senhora no lugar de Jesus. Tudo nela aponta para o Filho.
Devoção falsa e devoção verdadeira
Uma das partes mais úteis do livro é a lista dos falsos devotos de Maria. Montfort fala dos críticos, que desprezam a piedade simples do povo. Dos escrupulosos, que têm medo de honrar demais a Mãe e desonrar o Filho. Dos exteriores, que só cuidam de práticas visíveis. Dos presunçosos, que pecam confiando que a devoção os salvará. E também dos inconstantes, dos hipócritas e dos interesseiros.
Em contraste, a verdadeira devoção é interior, terna, santa, constante e desinteressada. Vem do coração, confia como um filho confia na mãe, leva a imitar as virtudes de Maria e não busca vantagem. Essa parte funciona como um ótimo exame de consciência para qualquer devoto.
O que mais marca na leitura
O ardor do autor. Montfort escreve com paixão, quase como quem prega numa missão popular. Há trechos de grande beleza sobre Maria como o molde em que Deus forma os santos, e sobre a humildade de Deus que quis depender de uma jovem de Nazaré.
Também marca a influência do livro. São João Paulo II contou que a leitura do Tratado, na juventude, foi decisiva na sua vida. Ele trabalhava numa fábrica durante a ocupação nazista da Polônia e levava o livro consigo. O lema do seu pontificado, Totus Tuus, que quer dizer todo teu, vem da fórmula de consagração de Montfort. O próprio papa escreveu sobre isso numa carta à família montfortina, disponível no site do Vaticano.
Para quem indicamos
Para quem ama Nossa Senhora e quer fundamentar essa devoção. Para quem reza o terço e deseja dar um passo a mais. Para quem pensa em fazer a consagração total. E para quem tem dúvidas sinceras sobre o lugar de Maria na fé católica: o livro mostra que a devoção mariana bem vivida sempre leva a Cristo. Veja mais conteúdos na seção Nossa Senhora.
Para quem talvez não seja o primeiro livro: quem está chegando agora à fé ou tem dificuldade com linguagem do século XVIII. Expressões como escravidão de amor podem soar estranhas e precisam de explicação. O tom às vezes é muito enfático e pode parecer exagerado a quem lê sem contexto.
Como ler e como fazer a consagração
Leia primeiro o livro inteiro, devagar, em duas ou três semanas. Só depois pense na consagração. Ela não deve ser feita por impulso.
Montfort propõe uma preparação: doze dias para se desapegar do espírito do mundo e mais três semanas dedicadas ao conhecimento de si mesmo, de Maria e de Jesus. São os famosos 33 dias. Muitos escolhem terminar a preparação numa festa mariana, como 25 de março, Anunciação, ou 8 de dezembro, Imaculada Conceição. Confira as datas no calendário.
Durante a preparação, reze todos os dias as orações indicadas no livro e o terço. Se puder, converse com um padre antes. Depois de feita, a consagração costuma ser renovada uma vez por ano. Encontre apoio nas orações e novenas do portal.
Escolha uma edição completa, com introdução. Muitas edições brasileiras já trazem o roteiro dos 33 dias no final, o que ajuda bastante.
Contexto que ajuda a entender
Montfort viveu numa França marcada pelo jansenismo, corrente rigorista que desconfiava da piedade popular e afastava as pessoas da comunhão. Boa parte da sua insistência na ternura de Maria é uma resposta a esse clima frio.
No Brasil, o amor a Nossa Senhora tem rosto próprio na Padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Ler Montfort ajuda a dar raízes teológicas a essa devoção tão presente nas famílias brasileiras.
Por que ler hoje
Muita gente reza a Nossa Senhora por costume, sem saber bem por quê. Outros sentem que precisam justificar essa devoção diante de amigos de outras igrejas. O Tratado ajuda nos dois casos. Dá fundamento bíblico e teológico a uma prática que, para muitos, vem do colo da mãe e da avó.
Além disso, o livro propõe algo que faz falta hoje: um compromisso. A consagração não é uma emoção passageira, é uma entrega para a vida toda. Num tempo de relações frágeis e decisões provisórias, isso tem um valor enorme.
Ficha do livro
Título: Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Título original: Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge. Autor: São Luís Maria Grignion de Montfort. Escrito: por volta de 1712. Primeira edição: 1843, depois da descoberta do manuscrito em 1842. Gênero: espiritualidade mariana. Tamanho: costuma ficar entre 150 e 300 páginas, conforme a edição e os apêndices. Festa do santo: 28 de abril.
Nossa avaliação
Nota 4,5 de 5. O Tratado é o grande clássico da devoção mariana e já ajudou milhões de pessoas, de leigos simples a um papa santo, a viver mais perto de Jesus por meio de Maria. A doutrina é sólida e a proposta da consagração é transformadora.
Tiramos meio ponto pela linguagem. O estilo do século XVIII, enfático e às vezes polêmico, pede uma boa edição com notas e, de preferência, alguém que ajude a ler. Com esse cuidado, é um livro para guardar e reler a cada ano. Veja outros reviews de livros católicos.