Corinto era uma cidade portuária grega, rica, movimentada e cheia de religiões diferentes. São Paulo fundou ali uma comunidade cristã e, alguns anos depois, escreveu a ela uma longa carta. Ele estava em Éfeso, como diz no fim da carta (1Cor 16,8), provavelmente pelos anos 50 do primeiro século.
A comunidade tinha muitos problemas. Havia grupos rivais, cada um dizendo ser de um líder diferente (1Cor 1,12). Havia ricos que comiam bem nas reuniões enquanto os pobres passavam fome (1Cor 11,21). E havia uma disputa sobre os dons espirituais: alguns se achavam superiores porque falavam línguas estranhas ou profetizavam.
É nesse ambiente que Paulo escreve os capítulos 12 a 14. No capítulo 12, ele explica que a Igreja é um só corpo com muitos membros, e que cada dom serve ao bem de todos. No fim desse capítulo, anuncia: vou mostrar a vocês “um caminho que ultrapassa todos os outros” (1Cor 12,31). O capítulo 13 é esse caminho.
O grego antigo tinha várias palavras para amor. Eros era o amor de desejo. Philia era o amor de amizade. Paulo usa a palavra ágape, pouco comum fora da Bíblia, que indica o amor que se doa, que busca o bem do outro sem esperar retorno.
As traduções latinas usaram a palavra caritas, de onde vem “caridade”. Por isso, em português, o texto é chamado de hino à caridade. Mas é bom lembrar que caridade, aqui, não é só dar esmola. É o próprio amor de Deus derramado no coração humano.
Primeira parte: sem amor, nada vale (1Cor 13,1-3)
Paulo começa com uma série de hipóteses exageradas. Se eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, mas não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine (1Cor 13,1). Em Corinto, os templos pagãos usavam instrumentos de metal barulhentos. Muito som, nenhum conteúdo.
Depois ele vai mais longe. Mesmo que tivesse o dom da profecia, conhecesse todos os mistérios e tivesse uma fé capaz de transportar montanhas, sem amor “eu nada seria” (1Cor 13,2). E mesmo que distribuísse todos os bens aos pobres e entregasse o próprio corpo, sem amor “de nada me aproveitaria” (1Cor 13,3).
A conclusão é forte. Até os gestos mais generosos podem ser vazios, se nascem do orgulho e não do amor. Os coríntios valorizavam os dons extraordinários. Paulo diz que o critério é outro.
Segunda parte: o retrato do amor (1Cor 13,4-7)
Nos versículos 4 a 7, Paulo descreve o amor com quinze características. Curiosamente, ele não usa adjetivos, mas verbos. O amor não é uma ideia, é uma forma de agir.
“A caridade é paciente, a caridade é prestativa” (1Cor 13,4). Paciência é suportar o tempo e os defeitos dos outros. Prestativa, ou benigna, é a bondade que se traduz em ajuda concreta. Em seguida, Paulo diz o que o amor não faz: não é invejoso, não se vangloria, não se incha de orgulho.
“Não faz nada de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor” (1Cor 13,5). Essa última expressão, em grego, usa um termo de contabilidade: o amor não fica anotando as dívidas do outro num caderno.
“Não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade” (1Cor 13,6). O amor não é cego nem conivente com o mal. Ele quer o bem verdadeiro do outro.
E por fim: “Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,7). A palavra “tudo” aparece quatro vezes. O amor não estabelece limite de paciência. Isso não quer dizer aceitar abusos, mas nunca desistir do bem do outro.
Terceira parte: o amor nunca passa (1Cor 13,8-13)
“A caridade jamais passará” (1Cor 13,8). As profecias vão acabar, as línguas vão cessar, o conhecimento vai desaparecer. Tudo isso é parcial e serve para esta vida. Quando vier o que é perfeito, o parcial ficará para trás.
Paulo usa duas comparações. A primeira é a da criança: quando eu era criança, falava e pensava como criança; ao me tornar adulto, deixei o que era de criança (1Cor 13,11). A segunda é a do espelho: “agora vemos como em espelho, de maneira confusa; depois veremos face a face” (1Cor 13,12). Os espelhos da época eram de metal polido e mostravam imagens imperfeitas.
O capítulo termina com uma frase muito citada: “Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade; mas a maior delas é a caridade” (1Cor 13,13). No céu, a fé dará lugar à visão, e a esperança dará lugar à posse. Só o amor continua para sempre.
O que a Igreja ensina
O Catecismo define a caridade como a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por ele mesmo, e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus (CIC §1822). Teologal quer dizer que ela vem de Deus e nos leva a Deus.
O parágrafo 1825 cita o retrato do amor de 1 Coríntios 13,4-7, e o 1826 retoma os versículos iniciais: sem a caridade, “nada sou”. O mesmo parágrafo afirma que a caridade é superior a todas as virtudes. O 1827 explica que ela é o “vínculo da perfeição” (Cl 3,14) e a forma de todas as virtudes, isto é, aquilo que dá vida a todas as outras. Os textos estão no Catecismo no site do Vaticano.
Bento XVI dedicou ao amor a sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, de 2005. E o papa Francisco, na exortação Amoris Laetitia, de 2016, comentou o hino frase por frase, aplicando cada característica do amor à vida dos casais e das famílias. É uma leitura muito útil para quem quer levar o texto para dentro de casa.
Aplicação para hoje
Este texto é lido em muitos casamentos, e com razão. Mas ele não foi escrito para noivos apaixonados. Foi escrito para uma comunidade em briga. Isso o torna ainda mais útil: ele serve para o casal com trinta anos de convivência, para os irmãos que discutem por herança e para a paróquia dividida.
Uma forma prática de rezar o texto é trocar a palavra “caridade” pelo próprio nome. “Fulano é paciente, Fulano não guarda rancor…” Logo aparecem os pontos em que precisamos crescer. Depois, troque pela palavra “Jesus”, e o texto vira um retrato perfeito dele.
Outra sugestão é escolher uma característica por semana. Nesta semana, por exemplo, praticar a paciência no trânsito, na fila ou com um parente idoso. Na próxima, não guardar rancor de uma ofensa recente.
Os santos são mestres nesse caminho. Santo Antônio é lembrado até hoje pela caridade com os pobres, e os santos esposos Luís e Zélia Martin mostram como o amor se vive no dia a dia da família. Para conhecer outros textos de São Paulo, veja a seção sobre a Bíblia.
Na arte: a Caridade de Giotto
A imagem que acompanha este estudo é um afresco de Giotto, pintado por volta de 1306 na Capela dos Scrovegni, em Pádua, na Itália. Ali, o pintor representou as virtudes como figuras femininas. A Caridade aparece entregando o próprio coração a Deus, que o recebe do alto, enquanto oferece com a outra mão uma tigela de frutos e flores.
Aos pés dela, há sacos de dinheiro pisados. A mensagem é a mesma de São Paulo: o amor verdadeiro se dá a Deus e ao próximo, e não se deixa dominar pelo apego aos bens.
Perguntas para reflexão
Qual das quinze características do amor é a mais difícil para mim? Em que relação concreta eu tenho anotado as dívidas do outro? Há gestos bons que faço mais por orgulho do que por amor?
Como seria a minha família se todos vivessem um único versículo deste capítulo? O que eu preciso deixar para trás, como coisa de criança, para amar de modo mais maduro?