O Magnificat é a resposta de Maria a um encontro. Depois da anunciação, o anjo Gabriel conta a Maria que sua parente Isabel, já idosa, estava grávida (Lc 1,36). Maria então parte “apressadamente” para uma cidade nas montanhas de Judá (Lc 1,39). A tradição situa essa casa em Ain Karem, perto de Jerusalém.
Quando Maria cumprimenta Isabel, o menino que Isabel esperava, o futuro João Batista, estremece de alegria no seu ventre. Cheia do Espírito Santo, Isabel reconhece em Maria “a mãe do meu Senhor” (Lc 1,43) e diz: “Feliz aquela que acreditou” (Lc 1,45).
É diante desse elogio que Maria começa a cantar. Mas, em vez de falar de si mesma, ela devolve tudo a Deus. Esse é o primeiro ensinamento do Magnificat: quem recebe um dom grande não se envaidece, mas louva quem deu.
O nome do cântico vem da primeira palavra em latim: “Magnificat anima mea Dominum”, isto é, “a minha alma engrandece o Senhor”. Lucas conta que Maria ficou com Isabel cerca de três meses (Lc 1,56).
Quem conhece bem a Bíblia percebe que o Magnificat é tecido com frases dos Salmos e dos profetas. O paralelo mais forte é o cântico de Ana, mãe do profeta Samuel, em 1 Samuel 2,1-10. Ana também era uma mulher humilde, que recebeu de Deus um filho quando não esperava mais, e também cantou que o Senhor derruba os fortes e levanta os fracos.
Isso mostra como Maria rezava. Ela conhecia as Escrituras de cor, como as moças judias piedosas da época, e a oração do seu povo era a sua própria oração. O Magnificat é a voz de Israel inteiro, que reconhece o cumprimento das promessas feitas a Abraão.
Leitura versículo a versículo (Lc 1,46-50)
“A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47). Engrandecer, aqui, é proclamar a grandeza. Maria não torna Deus maior; ela deixa que essa grandeza apareça. E chama Deus de “meu Salvador”, reconhecendo que tudo nela vem da graça.
“Porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48). A palavra traduzida por humildade também quer dizer pequenez, condição baixa. Maria era uma jovem de uma aldeia sem importância, Nazaré. Deus não escolheu uma rainha, mas uma serva.
“Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48). Esta frase é uma profecia que se cumpre até hoje. Cada vez que um brasileiro reza a Ave-Maria, ou visita o santuário de Nossa Senhora Aparecida, essa palavra de Maria se realiza.
“O Poderoso fez em mim grandes coisas, e santo é o seu nome” (Lc 1,49). As grandes coisas são a encarnação do Filho de Deus no seu ventre. Logo em seguida, Maria amplia o olhar: a misericórdia de Deus se estende “de geração em geração” sobre os que o temem (Lc 1,50). O que aconteceu com ela é sinal do que Deus quer fazer com todos.
Leitura versículo a versículo (Lc 1,51-55)
A segunda parte do cântico fala da ação de Deus na história. “Manifestou o poder do seu braço, dispersou os soberbos” (Lc 1,51). O braço de Deus é uma imagem do Êxodo, quando ele libertou o povo do Egito com mão forte.
“Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1,52). É um dos versículos mais fortes de toda a Bíblia. Ele não é um programa político, mas revela como Deus age: ele inverte as posições que o orgulho humano constrói. Os verbos estão no passado, como se a vitória de Deus já estivesse garantida.
“Encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc 1,53). A frase prepara o que Jesus dirá nas bem-aventuranças. Quem se sente cheio de si não tem espaço para receber. Quem reconhece a própria fome é saciado.
Por fim, Maria lembra que Deus “socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia” (Lc 1,54), conforme prometera a Abraão e à sua descendência para sempre (Lc 1,55). Deus é fiel. Ele demorou séculos, mas não esqueceu a promessa.
Os verbos de Deus no Magnificat
Uma forma simples de estudar o cântico é sublinhar os verbos que têm Deus como sujeito. Ele olhou, fez grandes coisas, mostrou o poder do seu braço, dispersou os soberbos, derrubou os poderosos, exaltou os humildes, encheu de bens os famintos, despediu os ricos e socorreu Israel.
São nove ações. Quase todas estão no passado, como se Maria olhasse para a história do seu povo e visse ali a mão de Deus. E, ao mesmo tempo, ela fala do futuro, porque o Filho que carrega no ventre vai realizar tudo isso de modo definitivo.
Lucas reúne, nos dois primeiros capítulos do seu Evangelho, três cânticos que a Igreja reza todos os dias. O de Zacarias, chamado Benedictus (Lc 1,68-79), abre a manhã nas Laudes. O de Maria, o Magnificat, marca a tarde nas Vésperas. E o de Simeão, chamado Nunc dimittis (Lc 2,29-32), encerra a noite nas Completas.
Assim, a oração oficial da Igreja atravessa o dia inteiro com palavras do Evangelho de Lucas. O Magnificat ocupa o lugar do entardecer, a hora de fazer o balanço do dia e reconhecer o que Deus realizou.
O que a Igreja ensina
O Catecismo da Igreja Católica fala do Magnificat ao tratar da oração. Ele diz que o cântico de Maria é, ao mesmo tempo, “o cântico da Mãe de Deus e o da Igreja” (CIC §2619). É também o cântico dos pobres, cuja esperança se vê cumprida nas promessas feitas aos patriarcas.
No parágrafo 273, o Catecismo apresenta Maria como modelo supremo de fé, porque acreditou que “a Deus nada é impossível” (Lc 1,37) e pôde proclamar a grandeza do Senhor. E o parágrafo 2622 resume: a oração de Maria, no seu “faça-se” e no seu Magnificat, é a oferta generosa de todo o seu ser na fé.
São João Paulo II dedicou ao cântico uma parte da encíclica Redemptoris Mater, de 1987. Ele viu no Magnificat o amor preferencial de Deus pelos pobres e humildes. Os textos do Catecismo podem ser lidos no site do Vaticano.
Um cântico rezado todos os dias
Desde muitos séculos, a Igreja reza o Magnificat todas as tardes, nas Vésperas da Liturgia das Horas. Padres, religiosos e muitos leigos terminam o dia repetindo as palavras de Maria. É uma forma de olhar para trás, ao fim de cada jornada, e reconhecer o que Deus fez.
O cântico também inspirou músicos de todas as épocas, de compositores clássicos a canções populares das paróquias. Em muitas comunidades brasileiras, ele é cantado nas festas marianas e nas romarias. Para conhecer mais sobre a Mãe de Jesus, veja a seção sobre Nossa Senhora.
Aplicação para hoje
O Magnificat ensina a rezar com gratidão. Muitas vezes, a nossa oração é só pedido. Maria mostra outro caminho: lembrar o que Deus já fez. Uma sugestão é, antes de dormir, recordar três coisas boas do dia e agradecer por elas, como quem reza um pequeno Magnificat pessoal.
O cântico também consola quem se sente pequeno. Muita gente com mais de quarenta anos se sente esquecida: pelo mercado de trabalho, pelos filhos que cresceram, pela sociedade que valoriza só a juventude. Maria canta um Deus que olha justamente para os humildes. Para ele, ninguém é invisível.
Por fim, o Magnificat nos questiona. Se Deus exalta os humildes e sacia os famintos, os cristãos não podem ficar do lado da indiferença. Um gesto concreto de partilha, por menor que seja, é uma forma de continuar o cântico de Maria. Para rezar com Maria, veja também as orações do portal.
Perguntas para reflexão
Quais “grandes coisas” Deus já fez na minha vida? Eu costumo agradecer por elas ou só pedir? Em que área da vida o orgulho ainda ocupa o lugar de Deus?
Quem são os humildes e os famintos perto de mim? Como posso servir alguém nesta semana, como Maria serviu Isabel? Que frase do Magnificat eu quero guardar no coração?