O Pai-Nosso tem uma invocação e sete pedidos: três voltados para Deus e quatro para as nossas necessidades.
O estudo explica cada frase com o contexto do Sermão da Montanha e a leitura do Catecismo (§2759 a 2865).
No fim, há sugestões para rezar o Pai-Nosso com mais atenção e perguntas para reflexão.
O contexto: uma oração sem muitas palavras
O Pai-Nosso aparece duas vezes nos Evangelhos. Em Lucas, a oração é ensinada depois que um discípulo pede: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1). Em Mateus, ela está no meio do Sermão da Montanha, nos capítulos 5 a 7. A versão de Mateus é a mais longa e é a que rezamos na Missa.
Logo antes de ensinar a oração, Jesus faz um alerta. Ele pede que os discípulos não multipliquem palavras, como os pagãos, que pensavam ser ouvidos pelo excesso de falar. “O vosso Pai sabe do que precisais, antes de lho pedirdes” (Mt 6,8). A oração cristã não é uma técnica para convencer Deus, mas uma conversa de filhos.
Bem cedo, os cristãos passaram a rezar o Pai-Nosso várias vezes por dia. Um escrito antigo chamado Didaqué, do fim do século I ou começo do II, já trazia o texto com uma frase final de louvor. O Catecismo lembra esse costume no parágrafo 2760.
“Pai nosso que estais nos céus”
A primeira palavra já é uma revolução. Jesus chamava Deus de Abbá, palavra aramaica cheia de intimidade, usada pelos filhos com o pai. Ao nos ensinar a dizer “Pai”, ele nos convida a entrar na mesma relação que ele tem com Deus. O Catecismo fala da “ousadia filial” com que a Igreja reza essa oração na Missa (CIC §2777).
A palavra “nosso” também é importante. Segundo o Catecismo, ela não exprime posse, mas uma relação totalmente nova com Deus (CIC §2786). Além disso, ninguém reza o Pai-Nosso sozinho. Mesmo no quarto, em silêncio, rezamos em nome de toda a Igreja e de todos os irmãos.
“Que estais nos céus” não indica um lugar distante, como se Deus morasse longe. O céu, aqui, fala da grandeza e da santidade de Deus. Ele está acima de tudo e, ao mesmo tempo, perto de cada um.
Os três primeiros pedidos: voltados para Deus
O Catecismo explica que o Pai-Nosso tem sete pedidos. Os três primeiros nos atraem para a glória do Pai. Os quatro últimos apresentam a ele as nossas necessidades (CIC §2803). A ordem é uma lição: primeiro olhamos para Deus, depois para nós.
“Santificado seja o vosso nome” (Mt 6,9). Não podemos tornar Deus mais santo do que ele é. Pedimos que o seu nome seja reconhecido e tratado como santo, em nós e no mundo (CIC §2807). Isso acontece quando a nossa vida honra o nome que carregamos desde o Batismo.
“Venha a nós o vosso Reino” (Mt 6,10). O Reino já chegou em Jesus, mas ainda não está completo. Pedimos que ele cresça no coração de cada pessoa e que venha em plenitude no fim dos tempos. O Catecismo lembra que o Reino se aproximou no Verbo encarnado e vem até nós na Eucaristia (CIC §2816).
“Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6,10). A vontade do Pai, diz o Catecismo, é que todos se salvem e que nos amemos uns aos outros como Cristo nos amou (CIC §2822). Jesus rezou essas mesmas palavras no Getsêmani, na hora mais difícil (Mt 26,42).
“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”
O quarto pedido é o mais simples e o mais humano. Pedimos o necessário para viver. O Catecismo comenta: “como é bela a confiança dos filhos, que tudo esperam do Pai!” (CIC §2828). Pedir o pão é reconhecer que tudo vem de Deus, até aquilo que ganhamos com o trabalho.
Repare que o pedido é por “nosso” pão, não “meu”. Quem reza assim não pode ficar indiferente a quem passa fome. O Catecismo diz que esse pedido traz uma responsabilidade concreta com os pobres e lembra também a outra fome, a fome da Palavra de Deus (CIC §2835).
A palavra grega traduzida por “de cada dia” é epioúsios, que não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento. O Catecismo explica que ela pode indicar o pão de hoje e também o pão da vida, o Corpo de Cristo recebido na Eucaristia (CIC §2837). Por isso os antigos viam neste pedido também uma oração eucarística.
“Perdoai-nos as nossas ofensas”
O quinto pedido tem duas partes, e a segunda assusta um pouco: “assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12). O Catecismo diz que essa petição é surpreendente, porque a resposta de Deus fica ligada à nossa atitude com os outros (CIC §2838).
Não é que Deus negue o perdão por vingança. É que um coração fechado ao irmão fica fechado também à misericórdia de Deus. O Catecismo usa a imagem de uma onda de misericórdia que não consegue entrar enquanto não perdoamos (CIC §2840).
Mateus reforça isso logo depois da oração: se perdoarmos, o Pai também nos perdoará (Mt 6,14-15). Perdoar não significa esquecer tudo nem fingir que nada aconteceu. Significa entregar a Deus a mágoa e desistir da vingança. Muitas vezes é um processo lento, que começa com a decisão de rezar pela pessoa.
“Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”
O sexto pedido não significa que Deus nos empurre para o pecado. O Catecismo esclarece que o sentido é “não permitas que entremos” na tentação, ou “não nos deixes sucumbir” a ela (CIC §2846). E cita a Carta de Tiago: Deus não tenta ninguém (Tg 1,13).
A tentação faz parte da vida. O próprio Jesus foi tentado no deserto. O que pedimos é força para não ceder e discernimento para reconhecer o mal quando ele se disfarça de bem. Esse pedido também pede vigilância: evitar as ocasiões que sabemos que nos derrubam.
O sétimo pedido completa o anterior. “Livrai-nos do mal” pode ser lido também como “livrai-nos do Maligno”. O Catecismo liga essa frase à oração de Jesus na Última Ceia: “não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (Jo 17,15; CIC §2850). Pedimos essa libertação para nós e para toda a família humana.
O louvor final e o Amém
Na Missa, depois do Pai-Nosso, a assembleia aclama: “Vosso é o Reino, o poder e a glória para sempre”. Essa frase não está no texto mais antigo de Mateus, mas é muito antiga na liturgia. O Catecismo explica que ela retoma os três primeiros pedidos em forma de ação de graças (CIC §2855).
E o Amém final quer dizer “assim seja”. Com ele, assinamos embaixo de tudo o que pedimos. O Catecismo diz que, pelo Amém, exprimimos o nosso “sim” a cada um dos sete pedidos (CIC §2865).
O texto completo do comentário do Catecismo pode ser lido no site do Vaticano. Tertuliano, escritor cristão do início do século III, chamou o Pai-Nosso de “resumo de todo o Evangelho”, expressão que o Catecismo cita no parágrafo 2761.
Aplicação para hoje
Quem reza o Pai-Nosso desde a infância corre um risco: rezar no automático. Uma sugestão prática é rezá-lo uma vez por dia bem devagar, fazendo uma pausa depois de cada frase. Pode levar dois minutos, e muda a forma de rezar.
Outra sugestão é escolher o pedido que mais combina com o momento. Quem está desempregado pode demorar no pão de cada dia. Quem carrega uma mágoa pode ficar no pedido do perdão. Quem enfrenta uma luta interior pode se apoiar no pedido sobre a tentação.
No terço, o Pai-Nosso abre cada mistério. Para rezar com mais atenção, veja as orações do portal e o espaço de oração. E para entender melhor a Missa, onde o Pai-Nosso tem lugar de destaque, acompanhe a liturgia diária.
Perguntas para reflexão
Como eu chamo Deus quando rezo? Sinto-me de verdade filho ou filha dele? Qual dos sete pedidos é o mais difícil para mim neste momento?
Existe alguém a quem eu ainda não consegui perdoar? Que passo pequeno posso dar nesta semana? De que forma o meu “pão nosso” pode chegar a quem tem menos do que eu?
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