Muita gente estranha ao ver este salmo com dois números. A explicação é simples. A Bíblia hebraica e a antiga tradução grega, chamada Septuaginta, dividem alguns salmos de forma diferente. A tradução latina da Igreja, a Vulgata, seguiu a numeração grega.
Por isso, nas Bíblias católicas e na liturgia, é comum encontrar “Salmo 22 (23)” ou “Salmo 23 (22)”. É o mesmo texto. O papa Bento XVI, em sua catequese sobre esse salmo, em 5 de outubro de 2011, lembrou exatamente isso: é o Salmo 23, segundo a numeração greco-latina 22.
O título do salmo o atribui a Davi. Davi foi pastor de ovelhas antes de ser rei, e essa experiência aparece em cada verso.
Para entender o salmo, é preciso imaginar a paisagem de Israel. Boa parte da terra é seca e pedregosa, com sol forte. O pastor seminômade levava o rebanho por longas distâncias em busca de capim e água. Sem ele, as ovelhas morriam de sede ou eram atacadas por animais.
Bento XVI destacou essa paisagem desértica na sua catequese. Num lugar assim, o pastor sabe onde há erva e água fresca. Por isso, dizer “o Senhor é o meu pastor” era afirmar uma dependência total e, ao mesmo tempo, uma segurança total. A catequese completa está no site do Vaticano.
Leitura verso a verso: o pastor (Sl 23,1-4)
“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará” (Sl 23,1). O salmo começa com a conclusão. Quem tem o Senhor como pastor tem o essencial. Não quer dizer que nunca haverá falta de nada material, mas que a pessoa nunca ficará sem o cuidado de Deus.
“Em verdes pastagens me faz repousar, conduz-me junto às águas tranquilas” (Sl 23,2). As ovelhas só se deitam quando estão saciadas e seguras. E não bebem de águas agitadas. O pastor procura o lugar certo para que elas descansem. Deus também sabe do nosso cansaço.
“Restaura as minhas forças, guia-me pelo caminho certo, por amor do seu nome” (Sl 23,3). O caminho certo é o caminho reto, que leva ao destino sem desvios perigosos. E o motivo do cuidado de Deus não é o nosso mérito, mas o seu próprio nome, isto é, a sua fidelidade.
“Ainda que eu caminhe por um vale escuro, não temerei mal algum, pois estás comigo” (Sl 23,4). Algumas traduções dizem “vale da sombra da morte”. Bento XVI explicou que a expressão hebraica evoca as trevas da morte. Repare que, neste verso, o salmista para de falar de Deus e passa a falar com Deus: “tu estás comigo”. No momento mais escuro, a oração fica mais pessoal.
“O teu bastão e o teu cajado me dão segurança.” O bastão servia para defender o rebanho dos animais selvagens. O cajado, com a ponta curva, servia para guiar e puxar a ovelha de volta. Os dois são sinais de proteção.
Leitura verso a verso: o anfitrião (Sl 23,5-6)
No verso 5, a imagem muda. Agora o Senhor é o anfitrião que recebe o viajante na sua tenda: “Preparas uma mesa para mim, à vista dos meus inimigos”. Na cultura do deserto, quem era recebido como hóspede ficava sob a proteção da casa. Os inimigos podiam olhar, mas não podiam tocar.
“Unges com óleo a minha cabeça, e o meu cálice transborda.” O óleo perfumado aliviava a pele queimada de sol e era sinal de honra e alegria. O cálice transbordando fala de festa e de generosidade. Deus não dá só o necessário; ele dá com sobra.
“Bondade e misericórdia me acompanharão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor por longos dias” (Sl 23,6). É como se a bondade de Deus fosse uma escolta que segue o viajante. E o destino final é a casa do Senhor. O caminho do rebanho termina em casa.
O que a Igreja ensina
O Catecismo dedica alguns parágrafos aos Salmos como escola de oração. Ele os chama de “obra-prima da oração no Antigo Testamento” (CIC §2585) e diz que no Saltério a Palavra de Deus se torna oração do homem (CIC §2587). O parágrafo 2589 aponta traços comuns a todos os salmos, entre eles a certeza do amor de Deus e a entrega à sua vontade.
Os cristãos sempre leram este salmo à luz de Jesus. Bento XVI resumiu essa leitura: Jesus é o Bom Pastor que procura a ovelha perdida, a luz que ilumina o vale escuro e o anfitrião que prepara a mesa do seu Corpo e do seu Sangue. A mesa e o cálice do salmo apontam para a Eucaristia, e o óleo lembra a unção do Batismo e da Crisma. O Catecismo explica o sentido do óleo como sinal de abundância, alegria e cura (CIC §1293).
Na liturgia, o Salmo 23 aparece com frequência como salmo responsorial, e é muito usado nas missas de exéquias, porque fala da travessia do vale escuro e da casa do Senhor. Os textos sobre os Salmos podem ser lidos no Catecismo no site do Vaticano.
O salmo nos lábios de Jesus e da Igreja
Quando Jesus disse “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11), os ouvintes certamente pensaram no Salmo 23. Ele assumia para si o título que o salmo dava a Deus. E o profeta Ezequiel já tinha anunciado que o próprio Deus viria pastorear o seu povo, porque os pastores humanos tinham falhado (Ez 34,11-16).
Também a parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-7) ganha cor quando lida ao lado do salmo. O pastor que guia por caminhos retos é o mesmo que vai buscar quem saiu do caminho. A segurança do salmo não é só para os que nunca se desviaram.
Uma forma de rezar o Salmo 23 é dividi-lo em quatro momentos. Primeiro, confiar: “nada me faltará”. Segundo, descansar: as pastagens e as águas tranquilas. Terceiro, atravessar: o vale escuro com a certeza de que ele está comigo. Quarto, agradecer: a mesa, o óleo e o cálice que transborda.
Esses quatro momentos podem acompanhar uma semana inteira de oração, ou até uma vida inteira. Há fases de confiança tranquila, fases de descanso, fases de vale escuro e fases de mesa farta. Em todas elas, o salmo tem uma palavra a dizer.
Aplicação para hoje
O Salmo 23 é talvez o texto da Bíblia mais rezado em hospitais, velórios e noites de insônia. Ele é curto o bastante para ser decorado e profundo o bastante para acompanhar a vida inteira. Uma sugestão é aprendê-lo de cor e rezá-lo em momentos de medo.
Quem passa por um vale escuro, como uma doença, o luto ou a solidão, pode se apoiar especialmente no verso 4. O salmo não promete que não haverá vale. Ele promete companhia no vale. Essa diferença é importante para uma fé madura.
O salmo também convida a confiar no tempo de Deus. As verdes pastagens e as águas tranquilas lembram que descansar faz parte do caminho. Muita gente acima dos quarenta carrega culpa por parar. O Pastor, porém, “faz repousar”.
Para rezar com outros salmos, veja as orações do portal e os textos sobre a Bíblia. Para ler o salmo responsorial de cada dia, acompanhe a liturgia diária.
Perguntas para reflexão
Posso dizer hoje, com sinceridade, que “nada me falta”? O que eu acho que me falta, e como entrego isso a Deus? Qual vale escuro já atravessei, e como percebi a presença do Senhor nele?
Eu me permito descansar nas verdes pastagens, ou vivo sempre em alerta? Por quais dons de Deus o meu cálice já transbordou? Como imagino a casa do Senhor onde espero habitar?